“Regiões metropolitanas estão órfãs”
O combate à desigualdade vai bem no Brasil, mas mal nas regiões metropolitanas, que estão ficando para trás. Para o economista André Urani, diretor-executivo do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), as áreas metropolitanas do país hoje estão órfãs, por não contarem com políticas públicas para enfrentar a crise em que submergiram nos últimos 15 anos. “Eram locomotivas da economia, mas foram aposentadas, por conta da mudança no modelo econômico. E o Brasil ainda não conseguiu propor nenhum novo futuro para as metrópoles”, avalia o pesquisador.
O Iets é instituição privada, sem fins lucrativos, voltada para a produção e a disseminação de conhecimentos na área social. Uma de suas principais linhas de pesquisa diz respeito à pobreza e à desigualdade, e é por meio dela que o instituto avalia políticas públicas, faz parceria com diferentes setores da sociedade e propõe estratégias de ação.
Na entrevista abaixo, Urani – pronuncia-se “uráni”, como recomenda a origem italiana da família do pesquisador – aplaude a queda na desigualdade que ocorre no Brasil, ressalta que ela não se estende às principais áreas metropolitanas e diz que as grandes cidades brasileiras precisam se reinventar.
Em uma de suas pesquisas, o Iets analisou o desempenho das metrópoles nas Pnads (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domícilios) de 1992 a 2004 e chegou a conclusão intrigante: nessas áreas, a distribuição de renda evoluiu de forma inversa ao país como um todo. No Brasil, o grupo que teve maior aumento de renda real no período foi o dos 10% mais pobres, com ganho de 62,9%; o menor foi o dos 10% mais ricos, com aumento real da renda média de 26,4%. Nas regiões metropolitanas, porém, o menor ganho real (de 10,1%) se verificou entre os 10% mais pobres, enquanto os 10% mais ricos tiveram o maior crescimento real de renda no período, de 22,7%.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista, feita por telefone no início de dezembro:
O sr. concorda que a questão da pobreza e da desigualdade hoje ocupa lugar central na agenda brasileira?
Graças a Deus. Já não era sem tempo.
Desde quando?
Não houve um momento mágico, é uma coisa que vem amadurecendo e tem a ver com a redemocratização. Na verdade, é em grande medida a superação da mentalidade ingênua que o Brasil teve durante muito tempo, acreditando que o crescimento resolveria todos os nossos problemas. Havia uma mentalidade que eu chamaria de “crescimentista” e que levou a barbaridades em vários campos: barbaridades do ponto de vista ecológico, barbaridades sociais, barbaridades políticas.
Uma coisa é ter desigualdade elevada, mas com grande mobilidade na sociedade, num quadro de crescimento econômico. Isso ocorria no Brasil. Mas, depois da redemocratização, nós passamos por um quarto de séculos de baixa mobilidade. Até demoramos para reagir. Acontece que junto com a democratização veio o acesso a informação e aos poucos a ficha foi caindo para todo mundo.
Agora vivemos um momento extremamente importante para o país, vivemos uma queda sustentada da desigualdade nos últimos dez anos.
Dez anos? Há muitas avaliações que apontam a queda da desigualdade nesta década, quer dizer, de 2000 para cá.
Fico com os muitos estudos, inclusive do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], apontando que o processo começou em 1997.
O sr. diria que a desigualdade caiu tanto em estatísticas quanto na percepção das pessoas?
Na verdade, não. A diferença de quem mora em Higienópolis para a galera que mora no Maranhão, no Piauí, tem diminuído de forma sensível. A pobreza rural e das cidades menores tem caído bastante.
Ocorre que quem mora em certas áreas de cidades como São Paulo e Rio não se deu conta da diminuição na desigualdade. E isso vai além da questão de percepção. Quem mora em grande cidades não tem como perceber essa queda porque ela não está acontecendo do mesmo modo nas metrópoles – lugares como São Paulo, Rio e o grosso do Brasil metropolitano.
A queda da desigualdade não atinge o país por igual?
Desde o [governo] Fernando Henrique Cardoso, com o projeto Alvorada, o combate à pobreza vem começando com os municípios de menor índice de desenvolvimento humano. Mas não é só isso. As metrópoles eram as locomotivas do país, mas depois foram aposentadas, por conta da mudança no modelo econômico. E o Brasil ainda não conseguiu propor nenhum novo futuro para as metrópoles.
Nacionalmente o quadro é positivo, mas nas regiões metropolitanas não se percebe. Os formadores de opinião de Rio e São Paulo não são capazes de reconhecer. Você anda pela rua e ainda vê muita, muita gente pobre. O diabo é que nós, de São Paulo e Rio, somos próximos à mídia e acabamos influenciado a opinião pública nacional.
Existe uma crise específica das metrópoles?
Vamos pegar o caso de São Paulo. A cidade quadruplicou a população e triplicou o PIB per capita entre 1950 e 1980. Foi uma revolução, um crescimento para deixar qualquer chinês ruborizado. As pessoas abandonavam tudo na Bahia, no Nordeste, onde quer que fosse, para chegar a São Paulo e fazer a América. Era uma revolução. Ainda que houvesse desigualdade e que ela até crescesse, parecia haver oportunidades para todos.
Depois a cidade deu um cavalo-de-pau em termos de crescimento. De 1980 até 2004, o PIB per capita de São Paulo cresceu menos de 1%. Isso gera um impacto que vai além da economia, gera ressentimento, acumula promessas não cumpridas. Todos se sentem como se tivessem caído num conto do vigário: achavam que estavam embarcando na modernidade, mas não foi bem isso o que acabou acontecendo.
No Rio, que é uma cidade maneira, criativa, hoje há muita gente vivendo do passado e de privilégios. Pegue o 1% da população mais rica da região metropolitana e olhe a PNAD. São os 120 mil mais ricos, e o que faz o principal provedor desses lares? No Rio, o peso dos inativos, dos aposentados é quatro vezes maior do que o dos empresários. Não tenho nada contra o inativo, mas, com todo respeito, ele vive do que já fez. O empresário vive daquilo que faz hoje. Isso é um sintoma.
Em matéria de políticas públicas, não há grandes ações destinadas a encarar essa crise, certo?
Hoje as regiões metropolitanas estão órfas. São órfãs totais.
Iets, CEM e as universidades têm um papel a desempenhar em matéria de chamar atenção para o descompasso entre as regiões metropolitanas e o Brasil como um todo?
Olha, eu tenho dedicado minha vida a isso, mas talvez não caiba a mim julgar a nossa contribuição, é melhor que outros avaliem isso. Temos chamado atenção para a importância da questão metropolitana no Brasil hoje. Ela é central para o país.
A inércia da opinião pública e a dificuldade de encarar as dificuldades da metrópole atrapalham a vida de todo mundo – em termos de crescimento econômico, mas também de uma redução mais rápida da desigualdade e de viver com maior democracia num sentido amplo.
Está mais do que na hora de rever os conceitos da opinião pública brasileira. Até agora, o país não foi capaz de propor nenhum tipo de futuro para nossas áreas metropolitanas. Ao contrário do que aconteceu em outros países que passaram por mudanças semelhantes e souberam mostrar planejamento. Na União Européia, isso também aconteceu, mas cidades como Lisboa, Barcelona, Londres, souberam se reinventar. Nos Estados Unidos, é notável o caso de Nova York.
Por onde começa a reinvenção?
Não tem uma receita pronta. Dá para olhar para experiências internacionais e ver se algo nos serve. Em alguns casos foi o poder público, em outros é a força da sociedade. Agora, você não tem como virar a página, como reinventar seu futuro, se não reconhecer a queda. Nós aqui ainda temos dificuldade de reconhecer. Talvez seja até uma certa vergonha. É uma tolice, uma forma de imaturidade. É como o alcoólatra que não consegue parar de beber, o fumante que precisa parar de fumar. Psicologicamente é análogo.
Não há saída sem uma mudança radical na forma de olhar a questão. As metrópoles são território de inovação, de novas tecnologias, de novos modos de vida. Nossas cidades estão ficando caretas, precisam voltar a ser vanguardistas de novo.
Tem solução?
O problema das metrópoles não se resolve em um mandato de presidente. O certo é que não podemos viver como antigamente. É preciso ter coragem de inovar e rever o papel do setor público, do setor privado e os recortes do espaço. No caso de Rio e São Paulo, é preciso que as duas cidades reinventem sua relação e trabalhem juntas. Uma coisa é certa: não vamos a lugar algum sem ousadia, sem novas maneiras de encarar o problema e sem desenvolver inovações institucionais.
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