
|
Ciências Sociais e Cinema
Documentário
O debate Ciências Sociais e Cinema Documentário foi realizado no dia 20 de agosto, logo após a exibição do filme A Moda do Centro, filme documentário de Marta Nehring baseado na pesquisa sobre a industria da moda no Bom Retiro, coordenada por Álvaro Comin, pesquisador do CEM e professor do Departamento de Ciências Sociais da USP. O debate também contou com a participação de Ismail Xavier e Henri Gervaiseau, ambos do Núcleo de Audiovisual do CEM e professores da ECA-USP, e Omar Thomaz, pesquisador do CEBRAP e professor do Departamento de Antropologia da Unicamp.
Duas idéias foram motores, e a Marta conseguiu agarra-las brilhantemente em vídeo. A primeira é uma discussão muito forte na sociologia moderna sobre economia informal, geralmente considerada como um reino de livre mercado. O que a experiência sociológica mostra é que justamente porque esses mercados são informais, ilegais, ‘idocumentados’, eles exigem uma regulação societal. Como não há lei ou contrato, a regulação social se torna um fator central. Em particular no caso do centro - mas isso vale também para os diversos segmentos da economia informal - os circuitos étnicos, familiares e religiosos são centrais na regulação desses mercados, eles de fato organizam setores econômicos inteiros. Esse é um tema importante na sociologia hoje, e está desenvolvido na tese de Branislav Kontic. A outra tese que eu sugeri está brilhantemente ilustrada pelo depoimento do casal de coreanos (donos de uma confecção e entrevistados no filme). Eles vão para a Europa duas vezes por ano atrás das grandes tendências da moda em cidades como Paris e Milão, mas dentro da confecção os bolivianos trabalham como escravos. É essa junção da revolução industrial da Inglaterra do séc. XVIII com a hipermodernidade e a globalização. Marta Nehring: A idéia inicial era seguir a trajetórias, desde a produção até a venda, de roupas com circuitos comerciais diferentes: as vendidas por ambulante, na galeria Pagé, e no Bom Retiro. Como cada uma tem um circuito de produção diferente, o estilo também é diferente. Nas ruas da ladeira General Carneiro você não acha as roupas que encontra no Bom Retiro, por exemplo. O roteiro inicial procurou dar conta de vários outros aspectos que não foram incluídos no filme, como os camelôs, os circuitos de compras, etc, porque ficou muito grande. Conversando com o Branislav e com o Álvaro ficou decidido que o Bom Retiro tinha um peso maior em relação aos outros bairros porque ele representa em São Paulo uma tendência de outras cidades mundiais. Desistimos de abordar a 25 de março, por exemplo, pois seria um mundo totalmente diferente do Bom Retiro, teria que falar de chineses, de contrabandos...A escolha também se deu por uma necessidade de focar o filme, por conta das restrições financeiras e temporais do documentário. O texto da pesquisa falava de outros aspectos que achei interessante, como a história do centro. Quais a razões da decadência urbanística e econômica do centro? Tentei incluir isso no filme, porque sou paulistana e adoro São Paulo. A pesquisa mostra que a ocupação econômica está totalmente ligada ao bairro, a rua, ao quarteirão. Assim, documentar o Bom Retiro é totalmente diverso de filmar o Brás ou a 25 de março. Também tinha interesse pessoal em resgatar a história do centro, já que minha tese de doutorado é sobre representação de São Paulo no cinema, e eu não conhecia o centro velho de São Paulo. Essa interseção de interesses é um ponto importante em um projeto. Outra questão, uma descoberta que não estava previsto no início, é a questão da nacionalidade. Muitos descendentes de primeira geração dizem que nunca teriam imigrado. Esse é o caso do casal de coreanos que aparecem no filme, que vieram para o Brasil com 4 anos de idade, ou seja, ele foi imigrado. Essa é uma discussão longa, sobre os paises que se fecham para os imigrantes, como os Estados Unidos, a Europa e o Brasil, que com seu pequeno poderio econômico na América do Sul fecha suas fronteiras para os bolivianos. É interessante constatar que existe um preconceito forte dos coreanos contra os bolivianos. Hoje, apear do mito de democracia racial, já se reconhece um pouco do racismo contra negros, mas ainda existe essa visão de que não há racismo no Brasil. Ismail Xavier: Uma das coisas que é nítida no filme é essa opção de não explicitar os conceitos gerais da investigação. O filme não segue o padrão convencional, comum na tv a cabo, por exemplo, em que uma voz se sobrepõe e diz "a verdade sobre isso aqui é essa", e em seguida vem a verdade ilustrada por uma cena qualquer ou por uma entrevista que dá voz às pessoas que fazem parte do universo em questão. Mas essa voz já entra totalmente emoldurada e definida, ela define um modo de viver aquele universo que está sendo objeto de indagação. Eu gostaria de perguntar para vocês, com uma suposta inocência, quais são as virtudes desse tipo de opção, se comparado com o documentário convencional, onde está tudo pronto, onde vale somente a pedagogia que produz um conjunto de saberes entre aspas, e as imagens que lá aparecem apenas ilustram o saber produzido pela pesquisa? Qual é a reação a essa forma que permite um contato mais direto com a experiência, fazendo com que o papel do cineasta se transforme no de um articulador? Claro que essa articulação não é inocente, mas joga o espectador em confronto direto com as falas, as fisionomias, e todas as ações que são apresentadas de modo que ele vá constituindo a seu modo uma maneira de interpretar essa experiência que está em imagens e som. Omar Thomaz- Existe uma idéia completamente equivocada na realização de documentários de que nós, antropólogos, cientistas políticos e sociólogos temos a pesquisa e a idéia, enquanto o cineasta entra com a técnica. Na verdade, o que fica evidente no filme e na fala da diretora é que o cineasta também tem idéias. A noção que o antropólogo tem a idéia e que a gente vai lá e fala para o cineasta "eu quero que você transforme minha pesquisa em filme" é um grande equivoco, isso redunda numa espécie de domesticação da idéia do cineasta, através de um mecanismo que é o nosso mecanismo de dar suporte a realidade, ou seja, o trabalho com texto, escrevemos teses, artigos etc. São poucos que conseguem combinar os dois tipos de suportes. Nós estamos lidando com dois universos autônomos, que tem sua lógica própria, um mecanismo próprio de funcionamento, sendo que ambos têm idéias. E nisso eu acho que o filme é extremamente feliz. O grande equívoco da área de antropologia visual é que eles estão abdicando de recuperar a tradição antropológica de lidar com a imagem para tentar fazer aquilo que o cineasta faz. A fotografia e o filme estão presentes na antropologia desde o início. Na década de 10, 20 e 30 os antropólogos já filmavam, mas certamente não filmavam para fazer antropologia visual. O problema é exatamente não recuperar essa tradição vigorosa. E por outro lado assumir que nem todo mundo é Pierre Verger. São poucos que de fato conseguem ser etnólogos, antropólogos e fotógrafos. Henri Gervaiseau – Quando começamos esse projeto não se sabia muito bem como conseguiríamos articular a pesquisa e o filme, então resolvemos considerar esse documentário como piloto, assumindo uma postura de ensaio. A gente tinha por um lado a idéia de servir, de alguma forma, como uma divulgação das pesquisas realizadas aqui no CEM. Não de simples divulgação da pesquisa, que seria cair naquele formato chato que o Ismail citou. E também tínhamos uma preocupação pedagógica. O filme representa uma segunda investigação, baseada na investigação inicial, na partir da qual se define os modos de exposição do resultado da pesquisa. Nesse momento, há uma pesquisa dupla, a pesquisa científica e a pesquisa do documentarista. A reflexão quanto a essa questão central, que é considerar o filme como modo sui generis de exposição das conquistas de um processo de investigação, ainda está muito pouco avançada. Muitas vezes o que se focaliza mais é a idéia do registro ou filme utilizado pelos antropólogos como forma de observação. Jean Rouge antecipa essa questão, mas nós não temos uma reflexão mais apurada sobre essa vertente que nos interessa mais, o documentário como uma forma de investigação própria, e uma forma de exposição dos resultados da investigação. Existe também a questão da dimensão pedagógica, algo pouco debatido no Brasil e em outros paises. Muitas vezes se considera que um trabalho de pedagogia audiovisual deve exportar conteúdos já explicitamente construídos para dentro do expectador. Na verdade, todas as pesquisas realizadas sobre esse tipo de divulgação demonstram que o que se preserva na cabeça da audiência é muito pouco, certamente o que estimula mais a mente do espectador e seu espírito associativo é mais o entrelaçamento de propostas e significações que instigam a sua reflexão. Foi exatamente isso
que a Marta fez, não há um discurso pronto sobre o que
significa aquele conjunto de questões e dados, pelo contrário,
nos é dado uma série de parâmetros e cabe ao espectador
de certa forma tentar tirar sua conclusão. Eu diria que esse
é o caminho que nós estamos tentando trilhar com os outros
filmes. O documentário está de certa forma recuperando
um tipo de postura do cinema moderno, de não oferecer significações
fechadas mas, muito pelo contrário, oferecer um conjunto de significações
que provoquem inquietações que podem estimular o pensamento.
|