Número Dois - julho/agosto/setembro de 2004
Matérias

Do relatório ao roteiro

O maior desafio de Nehring foi realizar algo que não fosse uma mera ilustração da pesquisa. “De cara, descartamos a opção de entrevistar os pesquisadores”, afirma a diretora, “A proposta era dizer coisas de forma diferente”. Por isso, o filme foi feito sem narrador, sendo baseado nas entrevistas de diversos personagens que participam dessa indústria.

Para Comin, a fórmula funcionou. “Apesar de não citar os dados da pesquisa diretamente, o filme conseguiu transmitir com êxito os dois pontos principais da pesquisa: 1) o fato de que os mercados informais apresentam regulação própria, através de circuitos étnicos, familiareas ou religiosos e 2) o contraste de uma indústria que se espelha nos moldes da Europa e Estados Unidos, mas que usa o trabalho escravo em sua linha de produção”.
Marta Nehring e Álvaro Comin - pesquisador e cineasta - colaboram na montagem de A Moda no Centro

Algumas peculiaridades do filme são fruto de opções da diretora. É o caso das fotos do centro velho, que aparecem no início ressaltando as transformações ocorridas no bairro, e que fazem parte de sua pesquisa de doutorado, e da ênfase no trabalho escravo e na ilegalidade, assunto que intrigou a diretora e teve mais espaço no filme do que na pesquisa.

A realização teve avaliação positiva no debate. “A experiência é inovadora, porque o cineasta usa a pesquisa como ponto de partida e inspiração, e não apenas como fonte de informações”, diz Xavier, Coordenador do grupo da Escola de Comunicação e Artes da USP no CEM. Para Thomaz, esse tipo de experiência revoga um equívoco antigo na antropologia visual, o de que o cineasta não tem idéias, mas apenas a técnica, servindo portanto apenas como registro.

Gervaiseau ressaltou que, dessa forma, a divulgação científica não se limita à mera exportação de conteúdos para o espectador. “A abordagem ensaística do diretor, que oferece reflexões abertas a respeito da temática abordada, convive com uma preocupação didática em instigar o espectador à refletir sobre o tema.”


No forno

Além de A Moda do Centro, outro dois filmes estão em fase de conclusão. Um está sendo realizado por Cláudia Mesquita, doutoranda da ECA-USP, e é baseado na pesquisa de Ronaldo de Almeida, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, sobre práticas religiosas em São Paulo. O outro, Terra em Trânsito, é uma produção independente de Gervaiseau, realizada com apoio do CEM. O CEM já tem mais três projetos para o ano que vem, e será estudada a possibilidade de negociar os filmes com redes de televisão educativa e de televisão a cabo.


Links

Íntegra do debate “Ciências Sociais e Cinema Documentário” no CEM

Especialistas analisam visões cinematográficas das grandes cidades
Leia notícia

Versão para Impressão


 

 

ELEIÇÕES
>>Pesquisadores fazem mapa inédito do voto paulistano
DOCUMENTÁRIOS
>>Pesquisa sobre a indútria textil é transformada em documentário
PARCERIAS
>>Geoprocessamento otimiza rede escolar de Guarulhos
ENTREVISTAS
>>Perfil de Fernando Limongi, presidente do CEBRAP
SP 450 ANOS
>>Ilustrações de Chico Caruso
CEM COMENTA
>>Pesquisadores do CEM falam sobre o novo plano diretor