Entrevista

Isaura Botelho
Isaura Botelho é pesquisadora na área de cultura do Centro de estudos da metrópole. Também coordena a área de difusão de conhecimento. Nesta entrevista ela fala de sua formação acadêmica e da pesquisa “Práticas culturais e uso do tempo livre na RMSP” atualmente em andamento no CEM. 
 

1. Desde quando você está envolvida com pesquisas na área de políticas culturais?

Desde o final dos anos 70 e início dos anos 80, trabalhando na área federal de cultura, vendo a necessidade de se ter instrumentos que permitissem um melhor conhecimento da realidade brasileira no campo da produção, difusão e consumo ou fruição – este talvez seja um termo mais adequado – de bens simbólicos, começamos eu e alguns colegas de trabalho a insistir no desenvolvimento de critérios e indicadores que pudessem auxiliar o planejamento dos investimentos no setor. Por outro lado, a diversidade cultural do país, bem como as suas desigualdades econômicas e sociais nos obrigavam a exercitar um olhar diferenciado sobre elas que nos permitissem uma abordagem adequada a cada contexto, a cada demanda, sem perder de vista o nacional. Nesse momento, contávamos mais com nossa sensibilidade e com o conhecimento que o próprio contato com a realidade nos fornecia. Meio artesanalmente, procurávamos sistematizar as informações que nos chegavam através da demanda, que vinha de todo o país, em dados, em estatísticas que nos forçavam a olhar com mais atenção determinados setores, nesta ou naquela região. Embora sendo uma experiência bastante precária naquele momento, ela nos serviu muito no sentido de melhorar a formulação de nossas políticas e o planejamento de nossas ações. Este é o período que procurei sistematizar no meu doutorado e que resultou no meu livro Romance de Formação – Funarte e Política Cultural – 1976-1990. No entanto, minha relação sistemática com as pesquisas socioeconômicas na área da cultura foi se dar em 1991, após a destruição promovida por Collor na área federal de cultura e que veio a ter rebatimentos na maioria das estruturas estaduais e municipais. Em fins de 91, fui para Paris, onde fiquei um ano, para acompanhar uma formação que era então oferecida pelo Ministério da Cultura francês em conjunto com a Universidade de Borgonha: é neste momento que tive a oportunidade de conhecer de perto, e de forma intensiva, o sistema francês de administração pública, sistema que funciona, ainda hoje, como modelo, principalmente para os países de origem latina. Foi aí que tive a oportunidade de conhecer de perto o trabalho realizado pelo departamento de pesquisas do Ministério da Cultura, que é o Département des études et de la prospective (DEP), criado em 1959. Ele tem como missão elaborar pesquisas, diagnósticas ou de avaliação, sobre todos os setores da vida cultural francesa, no sentido de instruir decisões em nível ministerial bem como informar os setores estudados, apontando caminhos viáveis para a solução dos problemas detectados. O conjunto de conhecimentos acumulado ao longo desses quarenta anos de trabalho está organizado em torno de seis eixos de observação sistemática: financiamento da cultura (pesquisas e análises periódicas sobre os orçamentos públicos em nível nacional); economia da cultura; estatísticas culturais; estudo dos comportamentos culturais, das instituições e, finalmente, documentação. Meu entusiasmo com o trabalho que pude conhecer levou-me a tentar sensibilizar instituições do nosso Ministério da Cultura para que se criasse algo homólogo, mas sem sucesso, confesso (só agora, no presente momento, estamos podendo encaminhar um núcleo de pesquisas nesse sentido). Este mesmo respeito pelo trabalho do DEP me leva a escolhê-lo para um pós-doutorado em 1999, momento em que pude me aprofundar nos temas que mais me interessavam, como os diversos estudos sobre públicos e práticas culturais.
A importância do departamento pode ser vista na repercussão internacional que algumas das pesquisas fundadoras de sua metodologia e que nasceram por demanda específica do DEP. A pesquisa coordenada por Michel de Certeau, a primeira delas, que redundou na famosa obra em dois volumes A invenção do cotidiano, uma reflexão antropológica sobre as práticas culturais. O primeiro volume – Artes do fazer – contém, além de artigos sobre a cultura popular, a escrita e a leitura, a televisão e a ficção, alguns textos sobre a cidade. O segundo volume – Habitar, cozinhar – contém um texto de Pierre Mayol sobre a noção de bairro, considerado de um ponto de vista teórico (intimidade e espaço público, vizinhança, comércios, mercado) e de um ponto de vista prático através de um estudo do bairro da Croix-Rousse em Lyon. Luce Giard aprofunda os modos de vida no quadro das estruturas familiares e no espaço da urbanidade, tanto no sentido da cidade, quanto no sentido das regras de cortesia e das tradições culinárias e de sua transmissão. A outra encomenda do DEP foi a Pierre Bourdieu e resultou no livro L’amour de l’art, recentemente traduzido no Brasil, que foi decisivo na orientação dada às pesquisas posteriores do departamento. Este modelo – em fase de discussão atualmente no DEP – se generalizou e se impôs, mesmo em nível internacional, apesar das diferenças entre as diversas pesquisas existentes nos vários países.

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