Entrevista

Cleodon Silva

Técnico metalúrgico. Fundador e atual coordenador do Instituto Lidas. Atuou durante 20 anos no movimento sindical. Coordenou a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo/capital, foi dirigente da CUT Metropolitana da CUT estadual/SP. Atualmente é profissional em geoprocessamento e em tecnologias de informações. Contato

 

Como surgiu seu envolvimento com geoprocessamento?

O nome geoprocessamento, ou “sistema de informação geográfica”, eu vim a conhecer bem depois, pois eu já estava praticando e não sabia como se chamava. Aconteceu da seguinte forma: no movimento sindical, a partir de 1987, quando perdemos as eleições no Sindicato dos Metalúrgicos para o Joaquim dos Santos Andrade, realizamos um balanço dos vários motivos que levaram a gente à derrota. Em uma das minhas verificações eu peguei dois anos de boletins e jornais publicados pelo movimento de oposição metalúrgica de São Paulo e fiz uma classificação desse material por temas. Observei que 43% dos temas de todas as publicações tratavam de saúde e segurança na fábrica – uma quantidade bastante grande – e resolvi tratar esta questão de uma maneira mais focada, pois existiam as denúncias mas nós não tínhamos no movimento domínio da legislação.
E aconteceu o seguinte: eu fiz um estudo de toda legislação e de todas as convenções coletivas dos metalúrgicos no período de dez anos e fui ver como surgiram as cláusulas de saúde e as lutas que levaram àquelas conquistas. Nesse processo, pesquisando sobre saúde na fábrica, tive contato com pessoas que, depois, fui saber que faziam parte do grupo de médicos ligados ao Davi Capistrano Filho.
Esses médicos estavam trabalhando numa nova metodologia que hoje é lei no Brasil, um método de fazer mapas de riscos nas fábricas. Risco físico, risco de estresse, risco químico; você fazia um mapa das seções da fabrica e localizava o tipo de risco. A gente fazia isso de forma clandestina porque era proibido. Ainda estávamos na ditadura e a situação era difícil; havia um clima de abertura, mas não chegava nas fábricas.

Você usou o geoprocessamento para organizar e articular os trabalhadores na fábrica. Como isso ocorreu?

Nós lidávamos com mapas quando organizávamos as greves. Quando realizávamos “piquetões”, com 20, 30 mil pessoas, a gente traçava um roteiro com a localização das fábricas, mas ainda era pouca a utilização dos mapas. Quando eu resolvi transferir essa metodologia de mapas de risco das fábricas pensei num mapa de risco da categoria metalúrgica na cidade de São Paulo. Por que me veio essa idéia? Porque estávamos enfrentando um problema sério dentro da fábrica. Qualquer trabalhador que apresentava um problema de saúde que dizia respeito às condições de trabalho tinha que procurar o médico da fábrica. O médico informava a administração da empresa, que demitia o trabalhador, pois não queria assumir a responsabilidade por ter impactado a saúde do trabalhador com aquela doença causada pelas condições precárias de trabalho, pela falta de equipamentos de segurança, enfim a responsabilidade da empresa em criar condições seguras de trabalho.
A gente não tinha escapatória: se ele ia para o médico da fábrica “dançava”, e depois que era demitido provar que “focinho de porco não era tomada” tomava anos e anos, e o trabalhador desistia do processo. Então eu pensei em localizar as indústrias, as casas dos trabalhadores e os equipamentos públicos de saúde, e a política que a gente tentou levar era de orientar os trabalhadores na utilização dos equipamentos públicos e orientar os técnicos de saúde pública a identificar o nexo causal da doença e do local de trabalho.
Assim me dei a tarefa, e foi uma tarefa enorme, de colocar todas as indústrias metalúrgicas à mão no mapa, e depois fazer um raio de localização através do CEP e verificar a mancha dos trabalhadores daquela empresa. Esse foi o traçado inicial que comecei a percorrer, mas não cheguei ao fim disso porque comecei a verificar, pelo cadastro das pessoas a partir do CEP, que em 70% dos endereços a numeração era abaixo de 800 metros. Como as ruas de São Paulo obedecem o sistema métrico – a 100 metros o número é 100 –, conclui que 70% dos trabalhadores moravam em ruas pequenas, de até 700 metros.
Outra coisa que constatei é que em todos os guias da cidade a orientação da rua não coincide com a numeração. Então eu procurava um guia que me indicasse o início da rua, e consegui com o mapa oficial da cidade (MOC). Ele tinha a tabela que indicava a página do mapa, com certeza era o começo da rua. Se era o começo da rua aquela quadrícula, e eu tinha os trabalhadores morando até 700 metros e a quadrícula equivalia a 500 metros quadrados, assim eu podia fazer a geocodificação quadrícula por quadrícula.
Verifiquei que algumas ruas ultrapassavam a mesma quadrícula; essas ruas eu medi e fiz um banco de dados que indicava a quadrícula pelo endereço com o número. Essa medição eu fiz com um escalímetro e uma correntinha, eu colocava a correntinha em cima da rua, depois esticava e media com o escalímetro. Assim adquiri consistência na distribuição das informações na base de 500 por 500 metros. Isso me deu condição de desagregar as informações.
Depois, por exemplo, peguei uma base de bacias e sub-bacias hidrográficas e cruzei com as quadrículas do MOC; consegui pegar todo o cadastro do CNAE (Classificação Nacional de Atividade Econômica) de 1981 e distribuir as indústrias de São Paulo por bacias hidrográficas. Como eu tinha os rios e os córregos, colocava as empresas que estavam dentro daquela bacia, e se era encontrado um metal pesado naquele córrego eu tinha o código nacional de atividade econômica que possibilitava inferir a matéria prima. Por exemplo, se era encontrado chumbo a gente podia localizar a fonte emissora daquele efluente. Esse trabalho eu apresentei na ECO 92, no Anhembi.

Quando você reconheceu que estava desenvolvendo um trabalho de geoprocessamento?

A partir desse trabalho eu me aproximei da Secretaria Municipal de Planejamento, através de Luisa Bataglia. Quando apresentei o trabalho, ela me disse: “Você fez um GIS”. Para mim giz era para escrever em lousa. Eu não entendi nada do que ela falou, mas logo depois verifiquei que se tratava de “sistema de localização geográfica”. Assim, fui apresentado ao programa MapInfo for DOS. Eu já trabalhava com um software de informação geográfica que desenvolvemos em DOS com Clipper. Nele a representação gráfica era por quadrículas. Quando vi o MapInfo fiquei deslumbrado, vendo as ruas traçadas na tela e a base de dados “viva”. Evidentemente que fui logo atrás de dominar essa tecnologia.
O passo seguinte foi a geocodificação por coordenada geográfica. Então a gente encontrou uma fórmula que, trabalhando com as linhas e polilinhas e o número da rua na base, conseguíamos fazer a geocodificação com uma precisão boa, além de ter nossa padronização e a geocodificação por rua e número. Eu nunca utilizei um software de fora para fazer geocodificação na cidade de São Paulo; até hoje usamos o mesmo software que desenvolvemos anos atrás. Apenas para a representação gráfica usamos o Maptitude e o MapInfo; eu confio mais na minha geocodificação do que na do MapInfo. Se tivéssemos dinheiro, poderíamos ter avançado e desenvolvido um software inclusive com representação gráfica. Mas nós não tínhamos essa pretensão.

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