Como surgiu seu envolvimento com
geoprocessamento?
O nome geoprocessamento, ou “sistema de informação
geográfica”, eu vim a conhecer bem depois, pois eu
já estava praticando e não sabia como se chamava.
Aconteceu da seguinte forma: no movimento sindical, a partir de
1987, quando perdemos as eleições no Sindicato dos
Metalúrgicos para o Joaquim dos Santos Andrade, realizamos
um balanço dos vários motivos que levaram a gente
à derrota. Em uma das minhas verificações
eu peguei dois anos de boletins e jornais publicados pelo movimento
de oposição metalúrgica de São Paulo
e fiz uma classificação desse material por temas.
Observei que 43% dos temas de todas as publicações
tratavam de saúde e segurança na fábrica
– uma quantidade bastante grande – e resolvi tratar
esta questão de uma maneira mais focada, pois existiam
as denúncias mas nós não tínhamos
no movimento domínio da legislação.
E aconteceu o seguinte: eu fiz um estudo de toda legislação
e de todas as convenções coletivas dos metalúrgicos
no período de dez anos e fui ver como surgiram as cláusulas
de saúde e as lutas que levaram àquelas conquistas.
Nesse processo, pesquisando sobre saúde na fábrica,
tive contato com pessoas que, depois, fui saber que faziam parte
do grupo de médicos ligados ao Davi Capistrano Filho.
Esses médicos estavam trabalhando numa nova metodologia
que hoje é lei no Brasil, um método de fazer mapas
de riscos nas fábricas. Risco físico, risco de estresse,
risco químico; você fazia um mapa das seções
da fabrica e localizava o tipo de risco. A gente fazia isso de
forma clandestina porque era proibido. Ainda estávamos
na ditadura e a situação era difícil; havia
um clima de abertura, mas não chegava nas fábricas.
Você
usou o geoprocessamento para organizar e articular os trabalhadores
na fábrica. Como isso ocorreu?
Nós
lidávamos com mapas quando organizávamos as greves.
Quando realizávamos “piquetões”, com
20, 30 mil pessoas, a gente traçava um roteiro com a localização
das fábricas, mas ainda era pouca a utilização
dos mapas. Quando eu resolvi transferir essa metodologia de mapas
de risco das fábricas pensei num mapa de risco da categoria
metalúrgica na cidade de São Paulo. Por que me veio
essa idéia? Porque estávamos enfrentando um problema
sério dentro da fábrica. Qualquer trabalhador que
apresentava um problema de saúde que dizia respeito às
condições de trabalho tinha que procurar o médico
da fábrica. O médico informava a administração
da empresa, que demitia o trabalhador, pois não queria
assumir a responsabilidade por ter impactado a saúde do
trabalhador com aquela doença causada pelas condições
precárias de trabalho, pela falta de equipamentos de segurança,
enfim a responsabilidade da empresa em criar condições
seguras de trabalho.
A gente não tinha escapatória: se ele ia para o
médico da fábrica “dançava”,
e depois que era demitido provar que “focinho de porco não
era tomada” tomava anos e anos, e o trabalhador desistia
do processo. Então eu pensei em localizar as indústrias,
as casas dos trabalhadores e os equipamentos públicos de
saúde, e a política que a gente tentou levar era
de orientar os trabalhadores na utilização dos equipamentos
públicos e orientar os técnicos de saúde
pública a identificar o nexo causal da doença e
do local de trabalho.
Assim me dei a tarefa, e foi uma tarefa enorme, de colocar todas
as indústrias metalúrgicas à mão no
mapa, e depois fazer um raio de localização através
do CEP e verificar a mancha dos trabalhadores daquela empresa.
Esse foi o traçado inicial que comecei a percorrer, mas
não cheguei ao fim disso porque comecei a verificar, pelo
cadastro das pessoas a partir do CEP, que em 70% dos endereços
a numeração era abaixo de 800 metros. Como as ruas
de São Paulo obedecem o sistema métrico –
a 100 metros o número é 100 –, conclui que
70% dos trabalhadores moravam em ruas pequenas, de até
700 metros.
Outra coisa que constatei é que em todos os guias da cidade
a orientação da rua não coincide com a numeração.
Então eu procurava um guia que me indicasse o início
da rua, e consegui com o mapa oficial da cidade (MOC). Ele tinha
a tabela que indicava a página do mapa, com certeza era
o começo da rua. Se era o começo da rua aquela quadrícula,
e eu tinha os trabalhadores morando até 700 metros e a
quadrícula equivalia a 500 metros quadrados, assim eu podia
fazer a geocodificação quadrícula por quadrícula.
Verifiquei que algumas ruas ultrapassavam a mesma quadrícula;
essas ruas eu medi e fiz um banco de dados que indicava a quadrícula
pelo endereço com o número. Essa medição
eu fiz com um escalímetro e uma correntinha, eu colocava
a correntinha em cima da rua, depois esticava e media com o escalímetro.
Assim adquiri consistência na distribuição
das informações na base de 500 por 500 metros. Isso
me deu condição de desagregar as informações.
Depois, por exemplo, peguei uma base de bacias e sub-bacias hidrográficas
e cruzei com as quadrículas do MOC; consegui pegar todo
o cadastro do CNAE (Classificação Nacional de Atividade
Econômica) de 1981 e distribuir as indústrias de
São Paulo por bacias hidrográficas. Como eu tinha
os rios e os córregos, colocava as empresas que estavam
dentro daquela bacia, e se era encontrado um metal pesado naquele
córrego eu tinha o código nacional de atividade
econômica que possibilitava inferir a matéria prima.
Por exemplo, se era encontrado chumbo a gente podia localizar
a fonte emissora daquele efluente. Esse trabalho eu apresentei
na ECO 92, no Anhembi.
Quando
você reconheceu que estava desenvolvendo um trabalho de
geoprocessamento?
A
partir desse trabalho eu me aproximei da Secretaria Municipal
de Planejamento, através de Luisa Bataglia. Quando apresentei
o trabalho, ela me disse: “Você fez um GIS”.
Para mim giz era para escrever em lousa. Eu não entendi
nada do que ela falou, mas logo depois verifiquei que se tratava
de “sistema de localização geográfica”.
Assim, fui apresentado ao programa MapInfo for DOS. Eu já
trabalhava com um software de informação geográfica
que desenvolvemos em DOS com Clipper. Nele a representação
gráfica era por quadrículas. Quando vi o MapInfo
fiquei deslumbrado, vendo as ruas traçadas na tela e a
base de dados “viva”. Evidentemente que fui logo atrás
de dominar essa tecnologia.
O passo seguinte foi a geocodificação por coordenada
geográfica. Então a gente encontrou uma fórmula
que, trabalhando com as linhas e polilinhas e o número
da rua na base, conseguíamos fazer a geocodificação
com uma precisão boa, além de ter nossa padronização
e a geocodificação por rua e número. Eu nunca
utilizei um software de fora para fazer geocodificação
na cidade de São Paulo; até hoje usamos o mesmo
software que desenvolvemos anos atrás. Apenas para a representação
gráfica usamos o Maptitude e o MapInfo; eu confio mais
na minha geocodificação do que na do MapInfo. Se
tivéssemos dinheiro, poderíamos ter avançado
e desenvolvido um software inclusive com representação
gráfica. Mas nós não tínhamos essa
pretensão.
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