Entrevista

Cleodon Silva
 

Qual a importância de estabelecer um novo padrão de territorialização, como as unidades de planejamento participativo (UPPs)?

Essa é a grande questão nossa. Por quê? Vários motivos nos levaram a isso. Primeiro: quando eu estava no movimento sindical, a referência de toda a nossa política era a fábrica. O bairro e todas as outras referências espaciais da cidade, para nós do movimento sindical da oposição metalúrgica, tinham a fábrica como referência. A reestruturação produtiva – com a saída das fábricas da região metropolitana de São Paulo – criou uma dispersão total dos trabalhadores. A referência de fábrica não fazia mais sentido, precisávamos de outra referência.
O cidadão perdeu, com a metropolização acelerada, também suas referências espaciais. Os bairros de São Paulo, ao contrário do Rio de Janeiro, perderam a capacidade de servir de referência. Por exemplo, alguém que diz que mora em Santo Amaro pode morar em Parelheiros ou no Campo Limpo. A distância entre esses lugares é muito grande, mas a referência continua sendo Santo Amaro.
A falta de um padrão de territorialização se reflete nos serviços públicos. As várias estâncias de governo usam territorializaçôes diferentes. A dos distritos de saúde é uma, a da zona eleitoral é outra, CEP é outra. Enfim, um monte de divisões territoriais que na verdade só contribuíam para levar confusão para o cidadão, e uma dificuldade em encontrar os serviços de seu interesse. Isso leva a uma aniquilação da cidadania, na medida que deixa a pessoa desorientada para resolver as coisas de seu interesse na cidade.

Como ocorreu a nova divisão territorial de São Paulo? Ao seu ver, quais foram os erros e acertos?

Para mim, a maior conquista do governo do PT (de 1989 a 1992) foi a nova territorialização da cidade, a elaboração dos 96 distritos. Veja as coincidências históricas desse processo da divisão territorial de São Paulo. Em 1988 ganha a eleição uma frente de esquerda em São Paulo, coisa quase impensável na capital do capital. Também é o ano da constituinte que outorgou aos municípios o direito de se auto-dividirem de acordo com suas necessidades. Antes só os governos estaduais impunham a divisão territorial dos municípios. Foi também o ano em que se iniciava a preparação para o Censo de 1990. Essa coincidência histórica permitiu que a equipe que trabalhava na divisão territorial de São Paulo já se preocupasse em coincidi-la com os setores censitários.
Interessante que o Censo de 1990 já respeitou os 96 distritos, mas na verdade eles só foram aprovados em lei em 1992. O IBGE assumiu a nova territorialização de São Paulo antes dela ser aprovada pela Câmara Municipal. Eu considero isso um ato de audácia e visão do IBGE. Isso permite que em 2000 a prefeita eleita, Marta Suplicy, pegue a cidade e tenha condições de fazer a consolidação do desenvolvimento de São Paulo respeitando os setores censitários, com um acúmulo de dez anos. Então já dá para fazer uma comparação com o Censo de 1990. Isso permitiu à Secretaria Municipal do Trabalho orientar as políticas sociais da prefeitura baseada nas informações consolidadas a partir dos Censos de 1990 e 2000.
A polícia militar até hoje não assumiu essa territorialização, o que eu acho um dos maiores absurdos. Porque toda relação dos crimes está liga às informações sociais de base censitária, e a divisão que a polícia usa para os distritos policiais não coincide com os distritos administrativos e, conseqüentemente, com os setores censitários. Qualquer política democrática que assumir o governo do Estado deve imediatamente alterar a base territorial da polícia militar.

Qual foi a sua atuação nesse processo de divisão territorial?

Quando eu disse que a “distritorialização” foi um dos grandes avanços, fui um dos batalhadores para levar essa divisão para o movimento sindical e popular. Mas eu tive um insucesso total. Quando eu fui mostrando os distritos e dizendo quais as vantagens de utilizar uma base que tivesse correspondência com o censo, ninguém quis assumir os novos distritos. Eu ficava sem saber se era eu que não estava conseguindo explicar ou se havia outro motivo. Eu só fui descobrir isso em 1997, quando comecei a trabalhar com as áreas da pesquisa “Origens e destinos”, realizada pelo Metrô.
Fui chamado para trabalhar num dos lotes da pesquisa, e desenvolvi um programa que acabou não sendo utilizado. Você digitava a rua e o número e ele indicava a zona UD, que era a divisão territorial criada pelo Metrô para ser utilizada na pesquisa. Então eu sobrepus o mapa de zona UD às informações geocodificadas que eu tinha. Na prática , significava uma subdivisão dos distritos respeitando os setores censitários. Nesse período eu estava há cinco anos lutando para levar a nova territorialização para o movimento sindical, e não consegui. Em 1997, além de tomar conhecimento dessas zonas UD, tive acesso a um artigo do professor Milton Santos na revista do Departamento de Geografia da UFMG chamado “Elementos espaciais básicos: uma questão de método”. Esse artigo significou uma revolução na minha cabeça, foi aí que as “fichas caíram”.
Na mesma época tomei conhecimento da divisão territorial em Belo Horizonte, onde eles criaram as unidades de planejamento (UPs). Tive acesso a toda a documentação a respeito desse trabalho, e o que me chamou a atenção foi o tamanho das UPs, que eram bem menores que os nossos distritos em São Paulo. Assim percebi que o problema dos distritos era que as pessoas não conseguiam identificá-los como seu pedaço, porque ainda eram grande demais. Assim, incorporei as zonas UD no meu trabalho junto ao movimento popular, e as pessoas passaram a se identificar com aquela área pois era próxima da vivência das pessoas.
Foi quando eu disse: “A zona UD se presta a ser uma unidade de planejamento, como em Belo Horizonte”, só que acrescentamos mais um “P”. Então ficou UPP, “unidade de planejamento participativo”, para garantir nosso objetivo de participação da base, e que se presta totalmente para ser seu o “meu pedaço”. E está acontecendo isso: a experiência que nós temos é de que é totalmente possível a população assumir isso como “seu pedaço”. Quando a população assume um pedaço que tem consistência censitária e ele é bem delimitado, começa a acumular informações. Aqui tem tantas indústrias, tantas farmácias, tantas escolas. Assim as coisas vão se somando e se interligando.
Isso abre a possibilidade para o que eu chamo de “base comum de conhecimento cidadão”, que é consolidada nessas áreas que passamos a chamar de UPPs. É a metáfora do espelho: se tem um espelho em cima dessa região, a pessoa olha e se projeta, mas ao mesmo tempo vê todo mundo. Assim o cidadão vê a possibilidade de, pelo seu movimento individual, fecundar um movimento coletivo. Isso possibilita uma sinergia e uma valorização dentro do próprio território.

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