
Quando eu morrer quero ficar
MÁRIO DE ANDRADE
Quando eu morrer
quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade
Saudade.
Meus pés
enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio
do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio
o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem
nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...
Os olhos lá
no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade.
Saudade...
As mãos
atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.
ONDE ENCONTRAR:
Quando eu morrer quero ficar (1945). In Poesias Completas. Belo Horizonte
/ São Paulo: Itatiaia / Edusp, 1987.