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DiverCIDADE 18
outubro 2008 a março 2009

TERRITÓRIOS DIGITAIS
MATÉRIAS

Cartografias do invisível: mapeando dinâmicas sociais

Combinação de métodos favorece pesquisa em ciências humanas

Com baixo custo, geoprocessamento pode trazer avanços na área social

Estudo mapeia território da habitação

Software livre ajuda a difundir geoprocessamento

ARTIGO ASSINADO

Mapeamentos Participativos, por John Sydenstricker-Neto

PERFIL

Sandra Cristina Gomes

ENTREVISTA

Aldaíza Sposati

NOTÍCIAS
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Matéria

Cartografias do invisível: mapeando dinâmicas sociais

Geoprocessamento produz nova cartografia que revela aspectos das dinâmicas sociais humanas. Metodologia pode favorecer políticas públicas, mas democratização dos dados ainda é desafio.

Por Gilberto Stam e reportagem de Ana Claudia Mielki

Nunca foi tão fácil se localizar no espaço. Sites como o Google Maps permitem estabelecer itinerários, enquanto o GPS praticamente leva a pessoa até o seu destino. Ou, caso a pessoa prefira ficar em casa, também pode obter uma imagem de satélite de algum lugar longínquo da Terra, através do site Google Earth. Mas quem acha que essas novas invenções revolucionaram a cartografia, talvez esteja enganado. De fato, esses sistemas nada mais são do que formas avançadas da cartografia tradicional, que representa o ambiente físico e visível, como rios, montanhas, prédios ou construções. Nas últimas décadas, no entanto, surgiu uma nova cartografia cujo objetivo é revelar outras dimensões do território: processos e dinâmicas humanas como oscilação populacional, segregação, comportamento cultural ou político, fluxo de pessoas ou índices sócio-econômicos.

vulnerabilidade

Mapa do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social
Fundação Seade

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Conhecida como geoprocessamento, a metodologia tem sua base tecnológica no Sistema de Informações Geográficas (SIG ), que avançou na década de 70 com o advento da computação gráfica e d os primeiros sistemas computacionais para análise de imagens de satélite. No Brasil, as primeiras aplicações de SIG foram na área ambiental, mais especificamente no monitoramento de grandes áreas, e em domínios específicos como a geologia e os negócios florestais. Posteriormente, foram aplicados também na organização e gestão dos serviços urbanos, e até mesmo na cobrança do IPTU. As Secretarias Municipais utilizam essa ferramenta para monitorar o padrão construtivo dos domicílios na cidade e aumentar a eficiência da arrecadação, usando um sistema complexo cujo nível de detalhamento chega até o lote.

Geógrafos e cientistas sociais identificaram nas novas técnicas computacionais uma ferramenta importante não só para levantar mais informações sobre o território, mas para verificar empiricamente a validade de suas teorias. Ou seja, a técnica contribuiu para que muitos debates em torno de questões sociais saíssem do âmbito de uma discussão de cunho mais ensaístico para contar com um maior embasamento no conhecimento empírico sobre o território e suas particularidades. Um exemplo disso é a relação entre território e pobreza. Embora seja mais ou menos evidente, especialmente para quem conhece a periferia, que a realidade de cada local é distinta, e que o fenômeno da pobreza assume diferentes faces em cada local, por muito tempo a pobreza foi considerada como um fenômeno homogêneo. Ao mesmo tempo, o poder público usava as mesmas estratégias de ação em locais com realidades totalmente diferentes. “Os SIGs permitiram um acúmulo de dados que mostram hoje de forma irrefutável que o espaço é um componente fundamental dos fenômenos sociais”, diz Eduardo Marques, diretor do Centro de Estudos da Metrópole.

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Imagem do Rio de Janeiro obtida no Google Earth.
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Mas a falta de informação nessa área ainda predomina. “O Brasil ainda não conhece o Brasil”, diz o engenheiro Antonio Miguel Vieira Monteiro, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “ . De fato, um dos maiores entraves para se tratar os problemas sociais brasileiros é o fato de que se conhece pouco sobre a dimensão territorial desses problemas. Uma possibilidade interessante da utilização do SIG e da análise espacial na área social é que técnica e metodologia juntos podem ampliar nossa percepção dos fenômenos, ao permitir uma visão geral ao mesmo tempo em que revela especificidades do território e caracterização de contextos de vizinhança importantes, em geral invisíveis aos olhos.” Já existem diversos exemplos de sucesso na aplicação da técnica na administração pública, muitas vezes com custo de implantação relativamente baixo.

“A melhor qualidade dessa ferramenta na relação com o gestor público é o fato de ela ser de fácil compreensão, quase auto-explicativa”, diz Felícia Madeira, diretora executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), que presta serviço para o poder público. Um exemplo disso é o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social, o IPVS, que apresenta os espaços urbanos dos municípios com cores diferentes segundo o seu grau de exposição a instabilidades sociais. “O mapa forneceu um embasamento técnico que contorna os tradicionais critérios políticos. Diversos gestores relataram que o nosso trabalho facilitou a definição e hierarquização das prioridades de repasse de verbas”, conta Madeira.

Apesar disso, a metodologia ainda é pouco utilizada. “O principal desafio é a capacitação profissional, ou seja, a formação de técnicos e pesquisadores capazes de interpretar os dados disponíveis usando essas novas ferramentas”, diz Monteiro. Um segundo problema está na disponibilidade de dados. “Muitos dados com natureza espacial ainda são considerados como propriedade privada. O problema é que muitas vezes esses dados têm uma função social importantíssima, porque podem ser aplicados em políticas públicas. O cadastro de consumidores de uma concessionária, por exemplo, poderia se r usado para fazer uma estimativa populacional de usuários para políticas públicas em saúde e educação, por exemplo ” diz Monteiro. Hoje em dia, os dados devem ser negociados com as empresas, o que implica atraso e custo para a pesquisa, e seria necessária uma mudança na legislação e na política de concessão para transformar isso.

Alguns passos importantes já foram dados. Um deles foi a produção da chamada base de logradouros - basicamente o mapa atualizado da cidade, fundamental em qualquer projeto de SIG - que até alguns anos atrás custava até 20 mil reais, e hoje está disponível gratuitamente no site do CEM. Porém, essa base está disponível apenas para a cidade de São Paulo. “A transposição dos territórios reais para os territórios digitais é uma forma viável de compreender a complexidade das grandes metrópoles”, defende Monteiro. Dada a complexidade das grandes metrópoles, a ajuda da informática deve ser um componente importante na busca de políticas públicas mais eficazes.

O que é

O Sistema de Informações Geográficas (SIG) é o suporte computacional que organiza informações em um banco de dados e possibilita a localização desses dados em um mapa. A metodologia usada na produção desses mapas é conhecida como geoprocessamento. A produção de cada mapa envolve uma análise de dados que é feita de acordo com a função desse mapa. Por exemplo, u m mapa pode mostrar o índice médio de escolaridade por setor censitário, com o objetivo de ajudar o gestor a identificar os locais com maior deficiência na educação. Para que as informações do banco de dados sejam localizadas no mapa, é necessário encontrar uma coordenada geográfica para cada informação presente no banco, processo também conhecido como georeferenciamento.


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