| Aldaíza Sposati é professora titular da PUC/SP e coordenadora do Núcleo de Seguridade e Assistência Social da universidade e do Centro de Estudos das Desigualdades Socioterritoriais - CEDEST (PUCSP/Inpe). Foi vereadora da Câmara Municipal de São Paulo de 2000 a 2002, quando assumiu a Secretaria Municipal de Assistência Social e trabalhou em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole na elaboração do Mapa da Vulnerabilidade Social. Aldaíza utiliza o geoprocessamento para a realização de mapas da Exclusão/Inclusão Social em algumas cidades do país, criando um índice para avaliar o fenômeno.
Uma das dificuldades das políticas públicas é contemplar as demandas de localidades específicas. Quais são os critérios normalmente utilizados para suas implementações?
As atenções às demandas pelo poder público, no caso brasileiro, não têm por trajetória a precedência de um pacto. Há dois caminhos que foram construídos que assumem formas diversas. O primeiro é a intermediação populista ou tecnocrata. O frequente sempre foi a diluição de demandas em casos ou situações que permitissem ao mediador ou fazer um favor ou combinar uma comissão, como no modelo dos despachantes. Nesta perspectiva, não há interesse em um pacto aberto e democrático, pois ele romperia com o “interessado” trabalho dos “intermediadores”. O outro caminho se dá pelos movimentos sociais, que constroem uma identidade coletiva pela “carência comum” e tornam-se um meio de pressão direto, sem intermediadores. Constituem sujeitos coletivos e não abrem mão do seu protagonismo.
O geoprocessamento pode facilitar a tomada de decisões?
O georeferenciamento é uma linguagem que possibilita enxergar a informação a partir do chão em que ela se assenta. Diferente de uma tabela de distribuição de eventos que exige um raciocínio abstrato, o georeferenciamento permite outro tipo de leitura dos dados de uma tabela. Considero que “planta” os dados no chão. Assim, os “dados” voltam “às suas raízes” e podem ser enxergados sob a influência de outras variáveis, como ambientais e culturais.
Neste sentido a linguagem do geoprocessamento é mais comunicativa, não exige formulações ou instrumentação especial para entendê-la. As imagens são comunicativas. Considero sua alta aplicabilidade, principalmente para gestões municipais variáveis em grandes territórios, que tendem a uma generalização que torna as diferenças invisíveis.
Como ele funciona enquanto instrumento político?
O geoprocessamento como ferramenta de decisão aproxima-se mais da construção de um pacto. Ele considera a demanda como totalidade e não como casos/situações isoladas. Portanto, tende a ser uma ferramenta de pressão pelo dimensionamento da realidade.
Permite indicar concentrações da demanda ou núcleos de intensificação da demanda. Localiza, portanto, prioridades coletivas. Posso afirmar que é um meio de exercer melhor distribuição. Outros poderão dizer que a ferramenta é desmobilizadora de movimentos. Aqui, de fato, tudo dependerá da forma democrática com que se faz circular as informações obtidas com o georreferenciamento.
Na minha experiência de construção do Mapa da Exclusão/Inclusão Social, construímos cartilhas populares e CDs, dando ampla e popular divulgação dos resultados. A questão aqui é a democratização da informação e não os resultados ou o uso do georeferenciamento.
O geoprocessamento é uma ferramenta muito utilizada na política brasileira?
A aplicação do geoprocessamento exige o acesso à comunicação digital, o que ainda não é realidade para todo o Brasil. Em 1994, iniciamos a realização do Mapa da Exclusão/Inclusão da cidade de São Paulo sem uma planta digital da cidade. Quase 10 anos depois é que São Paulo teve seus setores censitários digitalizados. Estamos tratando de uma aquisição tecnológica muito recente.
O que falta para difundir seu uso?
Muitas prefeituras têm só uma conexão de internet no Gabinete do Prefeito. As diversas áreas de gestão ainda não possuem esse acesso contínuo e cotidiano. A concepção de território é ainda fugaz. Alguns o entendem como mero limite. Não há heterogeneidade territorial.
O fato de ele requerer dados territorializados exige um rigor na feitura de banco de dados. A grafia de endereço e localização deve ser homogênea. Via de regra, não se tem bancos de dados compatíveis à aplicação do geoprocessamento. É, portanto, uma técnica que supõe requisitos de qualidade que nem sempre a gestão pública dispõe.
Quais as condições de São Paulo?
Hoje em São Paulo já temos um refinamento do uso do geoprocessamento. Chegou-se a um ponto em que faltam dados ou a atualização de dados para dar eficiência ao geoprocessamento. Por exemplo, os censos decenais tornaram-se por demasiado espaçados. No início da década estamos a olhar a década anterior. Assim quando chegamos ao 8º ano da década, estamos muito longe dos dados de 8 anos atrás.
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