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Entrevista

  CEM: nova abordagem do fenômeno metropolitano
  Argelina Figueiredo

O que motivou a criação do Centro de Estudos da Metrópole?

O CEM surgiu em resposta ao programa de Centros de Pesquisa Inovação e Difusão (CEPID) da Fapesp e foi concebido para atender aos objetivos desse programa.

Para nós, no Cebrap à época (isto em 1998 quando apresentamos o projeto, que teve início de fato em 2001) consistia em um grande desafio: o de integrar as pesquisas dos diversos grupos em torno de um objetivo analítico comum.O programa exigia ainda uma atuação em duas áreas nas quais não tínhamos nenhuma experiência, transferência de tecnologia e difusão de conhecimentos. Os resultados que obtivemos até agora mostram que conseguimos enfrentar esses desafios, apesar do longo caminho que ainda temos pela frente.

Quais instituições integram o CEM?

O CEM teve origem no CEBRAP, sua instituição sede, e na área de pesquisa tem como instituição parceira o LUME (Laboratório de Urbanismo da Metrópole) da FAU-USP. Nossas atividades na área de transferência são desenvolvidas em colaboração com a Fundação SEADE , e na área de difusão contamos com a participação do Laboratório de Linguagem Audiovisual, da ECA-USP e do SESC-SP.

Quais são as áreas de pesquisa mantidas pelo CEM?

Não vou listar as diversas áreas em que realizamos pesquisa, que podem ser consultadas no nosso site. Para ressaltar os aspectos substantivos tratados nos projetos do CEM, acho mais interessante agrupar as pesquisas desenvolvidas em cinco grandes grupos temáticos. Um primeiro grupo de projetos analisa as transformações na estrutura do mercado de trabalho na RMSP, as novas formas de emprego e seu impacto nos padrões de transição ocupacional e os efeitos das transformações da estrutura produtiva no mercado de trabalho. O segundo grupo estuda a distribuição espacial e a organização funcional da metrópole, enfatizando as transformações ocorridas no território metropolitano e na economia urbana. O terceiro grupo de projetos procura entender os padrões sócio-espaciais de desigualdade social e de representação política, e sua associação com os padrões de atuação do estado na distribuição de serviços sociais e na implementação de políticas públicas. O quarto grupo temático trata dos padrões de sociabilidade na metrópole, considerando sua diversidade étnica, religiosa e cultural e partindo do princípio de que estes processos assumem uma dinâmica específica na metrópole em comparação a outros espaços territoriais. Finalmente, um grupo de projetos trata dos conflitos urbanos e da constituição de uma agenda pública e de formas de governança na área ambiental, assim como das diversas formas de associativismo na RMSP.

Como esses diferentes projetos se articulam ou se integram?


Cada um dos projetos é desenvolvido por equipes que trabalham de forma independente dos demais. Porém, eles se integram a partir de eixos transversais de diversas naturezas. Eu os agrupei de acordo com áreas substantivas de interesse. No entanto, alguns temas substantivos, como pobreza, desigualdade e segregação, são aspectos também tratados por projetos não diretamente voltados para o estudo específico desses temas. Outro aspecto que conecta diferentes projetos são as implicações dos seus principais achados para a formulação e implementação de políticas públicas. Os diferentes projetos se agrupam também de acordo com as metodologias usadas. Temos grupos que se agregam a partir do uso de informações georreferenciadas com objetivos analíticos de natureza bastante diversa. Outros grupos de projetos são formados para o desenvolvimento de pesquisas por amostragem no tratamento de temas tão diversos como movimentos migratórios, estruturas familiares, práticas culturais e trânsito religioso. O desenvolvimento de pesquisas por meio de métodos etnográficos, por sua vez, articula grupos que estudam formas de emprego e práticas religiosas. Enfim, estas são as bases de intercâmbio e interlocução da equipe do CEM como um todo.

Quais as vantagens dessa interação?


Na minha opinião, essa forma de funcionamento – ou seja, a realização de pesquisas independentes por equipes de especialistas em áreas disciplinares e substantivas específicas, mas que permitem uma interlocução densa entre pesquisadores a partir de temas substantivos ou de interesses analíticos e abordagens metodológicas comuns – deu ao CEM, grandes vantagens no estudo do fenômeno metropolitano. A principal delas é o ganho em profundidade dos estudos produzidos por essas equipes, os quais, partindo uma sólida base empírica, alcançaram resultados que contribuem de forma importante para o entendimento do processo geral de transformação por que passa a metrópole paulistana. Alguns desses achados desafiando visões estabelecidas nessas áreas específicas de conhecimento. Para não me alongar, fico com dois exemplos. Nossas pesquisas na área de trabalho e atividade econômica mostram que o padrão de transformação produtiva em RMSP é bem mais complexo e combina mudanças e continuidades que não nos autorizam a caracterização de São Paulo como uma metrópole terciária, com nós mesmos fizemos inicialmente. Uma outra contribuição das pesquisas do CEM para o entendimento dos processos metropolitanos em geral e para a RMSP, em particular, consiste na descoberta de um padrão espacial de distribuição dos grupos sociais bem mais complexo e heterogêneo que desafia o consagrado modelo espacial “radial-concêntrico”. Nesse espaço, como mostram também nossas pesquisas, grupos vulneráveis podem ser identificados, não apenas com base em fatores relacionados à renda, mas também de acordo com padrões demográficos e ciclos familiares. Esses resultados têm importantes implicações teóricas e analíticas, além das conseqüências para a formulação e implementação de políticas públicas.

Quais atividades o CEM tem desenvolvido na área de transferência e difusão de conhecimento?

Nossas atividades de transferência dirigem-se ao setor público. Elas se apóiam no enorme acervo de dados sobre a RMSP que organizamos – a partir de bancos de dados já existentes e gerados pelas nossas próprias pesquisas – e integramos em um sistema de informações georeferenciadas. Atuamos na capacitação de técnicos do setor público para o uso dessas informações no planejamento e na implementação de políticas públicas. Paralelamente e de forma associada a essas atividades, realizamos estudos e diagnósticos para subsidiar a ação pública em diversos órgãos governamentais, municipais ou estaduais.
Para fins de tomada de decisões, e também para objetivos analíticos de alguns de nossos projetos de pesquisa, produzimos bases cartográficas com informações socioeconômicas e demográficas e as organizamos de forma bastante desagregada para permitir o seu uso em diferentes escalas. Ou seja, esses dados podem ser reagregados por nível de município, distritos, subprefeitura etc. ou usados até por setores censitários – dependendo dos objetivos analíticos de nossas pesquisas básicas e/ou de sua aplicação em decisões sobre políticas públicas. Essas bases de dados são distribuídas para técnicos do setor público e para pesquisadores em geral.
Acredito que essa foi uma forma criativa de dar nossa contribuição em “transferência de tecnologia”, área considerada totalmente estranha às Ciências Sociais, mas que era requisito para a apresentação do projeto de acordo com o programa CEPID. Ao longo desses três anos de vigência do projeto conseguimos estabelecer uma relação bastante profícua, com benefícios para ambas as partes, entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada na tomada de decisões sobre políticas públicas.
Esse acervo de informações serve também de base para as atividades de difusão para o grande público, que se desenvolvem de forma bastante integrada à área de transferência. Um produto estritamente “tecnológico” desenvolvido pelo CEM é o aplicativo para uso de mapas via Internet, que se encontra disponível em nosso site com cerca de trezentas variáveis socioeconômicas e políticas sobre a RMSP. Este aplicativo será utilizado também pelo SEADE para disponibilizar as estatísticas que produz.
Nosso esforço de difundir informações sobre a RMSP para o público em geral, inclui também a realização de documentários sobre a RMSP, realizados a partir de nossa parceria com a ECA, que constituiu um grupo de pesquisas sobre a representação da cidade no cinema. Os documentários previstos incluem um filme a ser apresentado em circuito comercial, sobre as relações sociais que ocorrem no cotidiano do trânsito na RMSP, e dois projetos pilotos sobre o cotidiano da população no uso dos serviços básicos de saúde e sobre a religiosidade em São Paulo.
Nossas atividades de difusão incluem ainda participação em atividades desenvolvidas por diversas unidades do SESC, colaborando com o fornecimento de informações e preparação de material cartográfico.

Qual o perfil dos pesquisadores dos CEM?

Além da diversidade de temas substantivos a partir dos quais nossas pesquisas abordam o fenômeno metropolitano, outra importante característica do CEM, é a sua interdisciplinaridade. As nossas atividades de transferência e difusão, por sua vez, requerem profissionais e técnicos altamente qualificados. O perfil de nossos pesquisadores decorre dessas três características básicas do CEM. Em nosso corpo de pesquisadores, temos, portanto, cientistas sociais, economistas, urbanistas, demógrafos, cineastas e estudiosos de comunicação, além de programadores, estatísticos e especialistas em geoprocessamento. Nesse conjunto, temos profissionais com formação acadêmica e técnica em diversas áreas de conhecimento. Vale destacar ainda os diversos estágios da carreira em que se encontram os nossos pesquisadores e a forte presença de estudantes, de graduação e pós-graduação, que representam o lado da formação de futuros cientistas existente no CEM. Nossa equipe é jovem. O que é muito positivo!

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