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Entrevista

  TRAJETÓRIA ACADÊMICA E ATUAÇÃO PROFISSIONAL
  Nadia Somekh

Qual sua trajetória e formação acadêmica?

Eu sou arquiteta e urbanista. A relação que tenho com o centro é antiga, anterior à minha formação acadêmica. Minha mãe trabalhava na rua Florêncio de Abreu e valorizava o centro, gostava de vir para cá. Nas férias, ela me trazia e era uma alegria, uma festa, achava lindo – o centro era muito bonito naquela época.

Antes de falar da minha formação acadêmica, gostaria de falar dessa minha formação afetiva, que começou desde pequena. Depois me formei arquiteta na FAU-USP e meu trabalho final de graduação foi sobre o edifício Martinelli. Fui entrevistar dois professores do Cebrap que também estudavam o edifício Martinelli. Eles entendiam e concordavam comigo que o edifício reproduzia de forma micro o que acontecia no centro; os professores eram Fernando Henrique Cardoso e Lúcio Kowarick. No meu trabalho de graduação, minha relação com o centro se concretizou; eu era fotógrafa e vinha fotografar o edifício todo dia. Meu orientador foi o professor e sociólogo Gabriel Bollaffi.

Em que situação se encontrava o edifício Martinelli naquela época?

Era um “cortição” que foi expropriado na época da guerra e não tinha uma legislação de condomínio. Alguns proprietários permaneceram, conseguindo o acesso à propriedade; já para outros isso não estava bem definido, resultando em ocupações irregulares. O edifício era uma cidade, tinha de tudo: sindicatos, bares, lojas, restaurantes, cortiços, hotéis e bancos – trabalhos formal e informal convivendo juntos –, uma reprodução do que acontecia no centro em uma escala menor. Todos os conflitos e problemas de ocupação que ocorriam no centro se reproduziam no edifício Martinelli. No momento em que fiz o trabalho final de graduação o Martinelli foi desapropriado; o prefeito na época era o Olavo Setúbal. O edifício passou por uma reforma importante, sendo ocupado em 90% por entidades públicas. Eu trabalhava na Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA) que, naquela época, chamava Coordenadoria Geral de Planejamento (CGP). Estava estagiando. Minha vida profissional começou enquanto fazia meu trabalho final de graduação. Isso é uma característica do meu perfil: sou acadêmica e também pragmática. Uma profissional voltada para a intervenção. Às vezes, pago um preço caro por isso: na profissão me consideram acadêmica e na academia me consideram pragmática. Eu gosto muito de ver resultados e “coisas” acontecendo, mas acho importante a reflexão sobre a minha prática. Na academia, ouço críticas sobre a prática profissional e nem sempre é fácil; fácil é criticar e não produzir nada.
Acho muito interessante esta minha característica e de outros colegas meus da academia, que partem do concreto e da intervenção prática para a reflexão do ponto de vista teórico e conceitual, inclusive para melhorar a prática. Eu comecei meu mestrado quando estava na Sempla. O posto que eu ocupo tem tudo a ver com a minha trajetória profissional e acadêmica. Meu primeiro emprego, na antiga CGP, era de estagiária, fazendo a ponte com o Departamento de Patrimônio Histórico. Essa questão da história foi importante, pois na FAU-USP eu tive uma formação muito boa nessa área. Desenvolvemos um trabalho em relação à linha metrô na Zona Leste fazendo um levantamento e elegendo um planejamento do patrimônio histórico dos imóveis a serem inventariados, imóveis históricos que deveriam ser preservados nesse eixo de transformação que se constituiria na implantação do metrô. Também na CGP comecei a trabalhar com a revisão do plano diretor e em uma pesquisa com o professor Gabriel Bollaffi sobre a evolução do preço da terra, e dentro desta pesquisa ele sugeriu que eu estudasse o crescimento vertical da cidade. Isso porque eu já havia feito o estudo sobre o edifício Martinelli. Nós estávamos preocupados com o plano diretor, com a preservação do patrimônio histórico e com a evolução do PIB (produto interno bruto) da PEA (população economicamente ativa).
Então eu passei a estudar o crescimento vertical da cidade de São Paulo – a localização dos edifícios, com que ritmo, intensidade e porque a cidade tem essa forma urbana e essa “cara vertical” – depois eu viria a constatar que São Paulo é vertical, mas não é densa. Fiz uma dissertação de mestrado que se chama “Desverticalização de São Paulo”, que mostra a verticalidade da cidade e comprova que esta não é densa. A forma urbana da cidade é relacional e produto de um modelo de desenvolvimento econômico baseado na indústria automobilística e na valorização da propriedade fundiária. O que se percebe é que São Paulo teve uma configuração urbanística voltada para os interesses imobiliários do mercado e para implantar esse modelo de desenvolvimento econômico. São Paulo é “espalhada” e a legislação reduziu a possibilidade de verticalizar, ao longo do século XX, gerando uma cidade com “baixíssima” produtividade. Isso é resultado de uma cidade que não otimiza os investimentos públicos, não prioriza o transporte coletivo, e sim o transporte individual, produzindo uma cidade “espalhada” e com terrenos caros. Desse modo, não deixa alternativas para a população de baixa renda; foi isso que concluí no meu mestrado. Nele eu detectei períodos de transformação do crescimento vertical.
Já no doutorado, eu estava de volta à Sempla. Trabalhei 12 anos lá. No mestrado ganhei uma bolsa da Fapesp que exigia dedicação exclusiva, então sai da Sempla para ficar um ano estudando. Depois fui trabalhar na CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e o PT ganhou a administração da prefeitura (1989). Com isso, eu voltei condicionada a fazer o plano diretor de 1991. Nessa época, fazia o doutorado me aprofundando nas origens da verticalização e da legislação urbanística para entender o que estávamos realizando e, em termos desta, na formulação do plano diretor de 1991. Eu estudei o primeiro período de verticalização (1920-39), que se concentra basicamente na área central, pontuando as transformações urbanísticas com as ações do Estado. A primeira lei que menciona o elevador exige este sempre que a edificação ultrapasse quatro andares. Em 1925, foi criado o registro de elevadores, que só foi implantado em 1939. Essas são as primeiras medidas de fiscalização dos edifícios, hoje históricos, que se localizam no centro, no eixo da av. São João com outro elemento na av. Angélica, e até na av. Paulista.
Eu constatei que as normativas de zoneamento que estávamos, até 1991, tentando reformular, tinham suas origens nesse período e não se preocupavam com a questão social, formando, assim, uma cidade vertical e um urbanismo modernizador. Eu mostrei na tese de doutorado que o urbanismo paulistano se volta para os interesses do mercado, para o negócio. A preocupação dos urbanistas, ao longo do século XX, não totalizava a questão social. É um urbanismo “modernizador”, mas não “moderno”, pois este último tem como foco a questão social. O doutorado me levou a poder dar aulas na pós-graduação. Na graduação eu lecionava desde 1987, na universidade Mackenzie; com o doutorado, em 1999, fui convidada a estruturar o mestrado. A pós-graduação no Mackenzie tem tudo a ver com meu perfil profissional. O mestrado desta faculdade é uma formação de arquitetos que querem refletir sobre sua prática profissional.
Nesse meio tempo, saí da Sempla e me tornei secretária de Planejamento Urbano e secretária de Planejamento e Meio Ambiente em São José dos Campos – fui chamada para formatar a legislação de uso e irrigação do solo. Depois fiquei 5 anos trabalhando na prefeitura de Santo André para a Ação Regional. Eu me distanciei um pouco do centro; foquei na região metropolitana, pensando em formas compartilhadas de gestão urbana. Para mim foi muito bom, pois saí do planejamento de São Paulo, da história do centro, para adquirir uma visão importante de práticas bem sucedidas de gestões compartilhadas. A região do ABC é um exemplo disso. O consórcio foi criado em 1990, mas eu assumi o posto de assessora de Ação Regional em 1997. Tratava-se de 7 municípios trabalhando de forma integrada. Junto a isso, foi criada a Câmara Regional do Grande ABC, que envolvia não só os consórcios dos 7 municípios mas também o governo do Estado e a sociedade civil, como sindicatos e empresários – todos pensando em produzir soluções para os problemas que o ABC estava e está enfrentando, como por exemplo desemprego, necessidade de desenvolvimento de cadeias produtivas complementares à grande indústria e estímulos a pequenas e médias empresas. Lá eu ajudei a montar a agência de desenvolvimento do Grande ABC, mais uma das instituições regionais que prevê esse trabalho de gestão compartilhada. Naquela época morreu o prefeito Celso Daniel (PT), uma grande perda para o Brasil; aprendi muito com ele. Depois a prefeita Marta Suplicy (PT) me chamou para criar uma agência de desenvolvimento na área central. Eu aceitei o convite e vim para cá muito feliz, achando que fui formada desde pequenininha até a passagem pelo ABC para estar na Emurb – tudo foi uma somatória.

Quando você chegou na Emurb, quais projetos de requalificação do centro já estavam em andamento?

Na verdade, já existia um plano de reconstrução que é do governo, o plano “Reconstruir o centro”; também existiam várias ações fragmentadas, não só na Emurb mas dentro do governo, mas faltava uma articulação. Na Emurb havia o projeto “Praça do Patriarca”, que estava semi-implantada, e o “Corredor cultural”, que vai desde o Centro Cultural Banco do Brasil até a praça Dom José Gaspar. Era isso que havia quando eu cheguei.

Como estas intervenções seriam financiadas?

Havia um contrato de financiamento do BID (Banco Interamenricano de Desenvolvimento) para ser formatado em termos de conteúdo e de concepção. Este contrato estava desagradando ao banco, pois estava focalizado em uma área muito grande (a subprefeitura da Sé) e as ações que previstas não apresentavam uma articulação satisfatória. Minha tarefa foi focalizar as ações e articular as que já estavam em andamento. Assim, analisei o que dava para ser articulado e formatado em termos de programa. Eles pediram o diagnóstico do centro – não gosto de usar essa palavra porque parece que a cidade está doente, que nós somos os “médicos” e que não existe complexidade ou conflito algum. Logo que assumi, contatei o CEM-Cebrap (Centro de Estudos da Metrópole) – que nós ajudou muito a entender a estrutura econômica do centro, a distribuição das atividades, e forneceu um banco de dados com a formatação de um sistema de informação do empresariado através de um levantamento realizado. Fizemos uma leitura de problemas que gostaríamos de ver revertidos com as ações que estávamos formatando. Isso se traduziu no contrato de financiamento do BID.

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