Em
que situação se encontrava o edifício Martinelli
naquela época?
Era um “cortição” que foi expropriado
na época da guerra e não tinha uma legislação
de condomínio. Alguns proprietários permaneceram,
conseguindo o acesso à propriedade; já para outros
isso não estava bem definido, resultando em ocupações
irregulares. O edifício era uma cidade, tinha de tudo:
sindicatos, bares, lojas, restaurantes, cortiços, hotéis
e bancos – trabalhos formal e informal convivendo juntos
–, uma reprodução do que acontecia no centro
em uma escala menor. Todos os conflitos e problemas de ocupação
que ocorriam no centro se reproduziam no edifício Martinelli.
No momento em que fiz o trabalho final de graduação
o Martinelli foi desapropriado; o prefeito na época era
o Olavo Setúbal. O edifício passou por uma reforma
importante, sendo ocupado em 90% por entidades públicas.
Eu trabalhava na Secretaria Municipal de Planejamento (SEMPLA)
que, naquela época, chamava Coordenadoria Geral de Planejamento
(CGP). Estava estagiando. Minha vida profissional começou
enquanto fazia meu trabalho final de graduação.
Isso é uma característica do meu perfil: sou acadêmica
e também pragmática. Uma profissional voltada para
a intervenção. Às vezes, pago um preço
caro por isso: na profissão me consideram acadêmica
e na academia me consideram pragmática. Eu gosto muito
de ver resultados e “coisas” acontecendo, mas acho
importante a reflexão sobre a minha prática. Na
academia, ouço críticas sobre a prática profissional
e nem sempre é fácil; fácil é criticar
e não produzir nada.
Acho muito interessante esta minha característica e de
outros colegas meus da academia, que partem do concreto e da intervenção
prática para a reflexão do ponto de vista teórico
e conceitual, inclusive para melhorar a prática. Eu comecei
meu mestrado quando estava na Sempla. O posto que eu ocupo tem
tudo a ver com a minha trajetória profissional e acadêmica.
Meu primeiro emprego, na antiga CGP, era de estagiária,
fazendo a ponte com o Departamento de Patrimônio Histórico.
Essa questão da história foi importante, pois na
FAU-USP eu tive uma formação muito boa nessa área.
Desenvolvemos um trabalho em relação à linha
metrô na Zona Leste fazendo um levantamento e elegendo um
planejamento do patrimônio histórico dos imóveis
a serem inventariados, imóveis históricos que deveriam
ser preservados nesse eixo de transformação que
se constituiria na implantação do metrô. Também
na CGP comecei a trabalhar com a revisão do plano diretor
e em uma pesquisa com o professor Gabriel Bollaffi sobre a evolução
do preço da terra, e dentro desta pesquisa ele sugeriu
que eu estudasse o crescimento vertical da cidade. Isso porque
eu já havia feito o estudo sobre o edifício Martinelli.
Nós estávamos preocupados com o plano diretor, com
a preservação do patrimônio histórico
e com a evolução do PIB (produto interno bruto)
da PEA (população economicamente ativa).
Então eu passei a estudar o crescimento vertical da cidade
de São Paulo – a localização dos edifícios,
com que ritmo, intensidade e porque a cidade tem essa forma urbana
e essa “cara vertical” – depois eu viria a constatar
que São Paulo é vertical, mas não é
densa. Fiz uma dissertação de mestrado que se chama
“Desverticalização de São Paulo”,
que mostra a verticalidade da cidade e comprova que esta não
é densa. A forma urbana da cidade é relacional e
produto de um modelo de desenvolvimento econômico baseado
na indústria automobilística e na valorização
da propriedade fundiária. O que se percebe é que
São Paulo teve uma configuração urbanística
voltada para os interesses imobiliários do mercado e para
implantar esse modelo de desenvolvimento econômico. São
Paulo é “espalhada” e a legislação
reduziu a possibilidade de verticalizar, ao longo do século
XX, gerando uma cidade com “baixíssima” produtividade.
Isso é resultado de uma cidade que não otimiza os
investimentos públicos, não prioriza o transporte
coletivo, e sim o transporte individual, produzindo uma cidade
“espalhada” e com terrenos caros. Desse modo, não
deixa alternativas para a população de baixa renda;
foi isso que concluí no meu mestrado. Nele eu detectei
períodos de transformação do crescimento
vertical.
Já no doutorado, eu estava de volta à Sempla. Trabalhei
12 anos lá. No mestrado ganhei uma bolsa da Fapesp que
exigia dedicação exclusiva, então sai da
Sempla para ficar um ano estudando. Depois fui trabalhar na CDHU
(Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e o PT ganhou
a administração da prefeitura (1989). Com isso,
eu voltei condicionada a fazer o plano diretor de 1991. Nessa
época, fazia o doutorado me aprofundando nas origens da
verticalização e da legislação urbanística
para entender o que estávamos realizando e, em termos desta,
na formulação do plano diretor de 1991. Eu estudei
o primeiro período de verticalização (1920-39),
que se concentra basicamente na área central, pontuando
as transformações urbanísticas com as ações
do Estado. A primeira lei que menciona o elevador exige este sempre
que a edificação ultrapasse quatro andares. Em 1925,
foi criado o registro de elevadores, que só foi implantado
em 1939. Essas são as primeiras medidas de fiscalização
dos edifícios, hoje históricos, que se localizam
no centro, no eixo da av. São João com outro elemento
na av. Angélica, e até na av. Paulista.
Eu constatei que as normativas de zoneamento que estávamos,
até 1991, tentando reformular, tinham suas origens nesse
período e não se preocupavam com a questão
social, formando, assim, uma cidade vertical e um urbanismo modernizador.
Eu mostrei na tese de doutorado que o urbanismo paulistano se
volta para os interesses do mercado, para o negócio. A
preocupação dos urbanistas, ao longo do século
XX, não totalizava a questão social. É um
urbanismo “modernizador”, mas não “moderno”,
pois este último tem como foco a questão social.
O doutorado me levou a poder dar aulas na pós-graduação.
Na graduação eu lecionava desde 1987, na universidade
Mackenzie; com o doutorado, em 1999, fui convidada a estruturar
o mestrado. A pós-graduação no Mackenzie
tem tudo a ver com meu perfil profissional. O mestrado desta faculdade
é uma formação de arquitetos que querem refletir
sobre sua prática profissional.
Nesse meio tempo, saí da Sempla e me tornei secretária
de Planejamento Urbano e secretária de Planejamento e Meio
Ambiente em São José dos Campos – fui chamada
para formatar a legislação de uso e irrigação
do solo. Depois fiquei 5 anos trabalhando na prefeitura de Santo
André para a Ação Regional. Eu me distanciei
um pouco do centro; foquei na região metropolitana, pensando
em formas compartilhadas de gestão urbana. Para mim foi
muito bom, pois saí do planejamento de São Paulo,
da história do centro, para adquirir uma visão importante
de práticas bem sucedidas de gestões compartilhadas.
A região do ABC é um exemplo disso. O consórcio
foi criado em 1990, mas eu assumi o posto de assessora de Ação
Regional em 1997. Tratava-se de 7 municípios trabalhando
de forma integrada. Junto a isso, foi criada a Câmara Regional
do Grande ABC, que envolvia não só os consórcios
dos 7 municípios mas também o governo do Estado
e a sociedade civil, como sindicatos e empresários –
todos pensando em produzir soluções para os problemas
que o ABC estava e está enfrentando, como por exemplo desemprego,
necessidade de desenvolvimento de cadeias produtivas complementares
à grande indústria e estímulos a pequenas
e médias empresas. Lá eu ajudei a montar a agência
de desenvolvimento do Grande ABC, mais uma das instituições
regionais que prevê esse trabalho de gestão compartilhada.
Naquela época morreu o prefeito Celso Daniel (PT), uma
grande perda para o Brasil; aprendi muito com ele. Depois a prefeita
Marta Suplicy (PT) me chamou para criar uma agência de desenvolvimento
na área central. Eu aceitei o convite e vim para cá
muito feliz, achando que fui formada desde pequenininha até
a passagem pelo ABC para estar na Emurb – tudo foi uma somatória.
Quando
você chegou na Emurb, quais projetos de requalificação
do centro já estavam em andamento?
Na verdade, já existia um plano de reconstrução
que é do governo, o plano “Reconstruir o centro”;
também existiam várias ações fragmentadas,
não só na Emurb mas dentro do governo, mas faltava
uma articulação. Na Emurb havia o projeto “Praça
do Patriarca”, que estava semi-implantada, e o “Corredor
cultural”, que vai desde o Centro Cultural Banco do Brasil
até a praça Dom José Gaspar. Era isso que
havia quando eu cheguei.
Como
estas intervenções seriam financiadas?
Havia um contrato de financiamento do BID (Banco Interamenricano
de Desenvolvimento) para ser formatado em termos de conteúdo
e de concepção. Este contrato estava desagradando
ao banco, pois estava focalizado em uma área muito grande
(a subprefeitura da Sé) e as ações que previstas
não apresentavam uma articulação satisfatória.
Minha tarefa foi focalizar as ações e articular
as que já estavam em andamento. Assim, analisei o que dava
para ser articulado e formatado em termos de programa. Eles pediram
o diagnóstico do centro – não gosto de usar
essa palavra porque parece que a cidade está doente, que
nós somos os “médicos” e que não
existe complexidade ou conflito algum. Logo que assumi, contatei
o CEM-Cebrap (Centro de Estudos da Metrópole) – que
nós ajudou muito a entender a estrutura econômica
do centro, a distribuição das atividades, e forneceu
um banco de dados com a formatação de um sistema
de informação do empresariado através de
um levantamento realizado. Fizemos uma leitura de problemas que
gostaríamos de ver revertidos com as ações
que estávamos formatando. Isso se traduziu no contrato
de financiamento do BID.
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